sexta-feira, 6 de maio de 2011

NA MEMÓRIA E NA HISTÓRIA – No tempo em que acreditávamos

Perder uma semifinal de Paulistão para o Corinthians nos pênaltis, com uma arbitragem – digamos – polêmica, dói. Perder uma final de Libertadores para o Boca Juniors em casa dói. Perder uma decisão de Mundial para o Manchester United com uma falha do maior ídolo dói. Perder – ou melhor, empatar duas vezes em zero a zero – uma final de Brasileirão para o Vasco do Eurico Miranda dói.


Perder de 6 a 0 para o Coritiba como ontem não dói. Dá uma vergonha lascada, isso sim! Vergonha daquelas de fazer o cara não querer sair de casa, sabe? Não tenho vergonha de falar que, muitas vezes, tenho vergonha do Palmeiras. Desculpe-me o torcedor mais xiita, mas é verdade. Que outro nome tem o que eu senti quando andei por quase um quilômetro do Pacaembu até meu carro depois de ver o time perder em casa para o rebaixado Goiás e dar adeus à Copa Sulamericana no ano passado?


É engraçado. Acredite ou não, eu tenho com o Palmeiras uns lances premonitórios. Não estou me gabando disso, não, pelo contrário. Preferia não ter. Vira e mexe, eu sinto quando o time vai se dar mal. No dia do jogo, são vários os sinais. Antevejo gols que o time leva. Adivinho pênaltis perdidos. É um inferno. Não é sempre, mas quando acontece é, como diriam os antigos, batata! Até parei de ir ao estádio por causa disso.


Nesta quinta-feira, tentando pensar em um bom e velho jogo para o tradicional post de sexta, eis que me vem à cabeça uma inesquecível disputa de 1995. Veio assim, do nada, como se fosse um sinal. Palmeiras e Grêmio pelas quartas de final da Libertadores da América.


No jogo de ida, tal qual no Couto Pereira ontem, o Verdão foi esculachado. Arce, Arílson, Jardel, Jardel, Jardel. Grêmio 5, Palmeiras 0. Confusão, briga. Fim da linha para o alviverde na disputa pela América, certo? Bom... Certo, mas não foi tão fácil assim. Naquele tempo, era permitido, aos palestrinos, acreditar.


Palestra Itália, dois de agosto de 1995. Se a eliminação era certa, o que viesse seria lucro. E o lucro foi grande. O que aconteceu naquele dia, até hoje, dá orgulho ao torcedor palmeirense.


O que já era ruim ficou horrível para o Palmeiras quando, aos oito minutos do primeiro tempo, Jardel se aproveitou de uma bobeira geral da zaga palmeirense e, meio de canela, fez um a zero para os gaúchos, comandados por Felipão.


A partir daí, o Palmeiras não desanimou, ao contrário do time atual. Em nome de algo chamado dignidade, foi para cima do Grêmio. Minutos depois, Wágner tentou invadir a área pela esquerda e a bola tocou na mão de Arce. O árbitro Antônio Pereira da Silva não viu pênalti na jogada. Aos 29, Cafu, jogando como meia, se aproveitou de uma confusão na área gremista, recebeu de Alex Alves e empatou. Dez minutos depois, mais uma jogada de Alex Alves pela direita e o improvável aconteceu. Um gol de Amaral! Assim, o Palmeiras virou o jogo ainda no primeiro tempo. A classificação estava longe. Faltavam pelo menos quatro gols para que a decisão fosse para os pênaltis.


O segundo tempo veio e trouxe com ele a fé no milagre. Treze minutos. A jogada começou com Mancuso no meio do campo e terminou na conclusão fatal de Paulo Isidoro. Três a um para o Palmeiras. O quarto gol saiu da luta de Antônio Carlos, um leão em campo. O zagueiro invadiu a área e foi derrubado por Luís Carlos Goiano. Pênalti, que o argentino Mancuso (auxiliar de Maradona na Copa do Mundo da África do Sul) bateu com categoria, tirando o goleiro Murilo da foto.


Só faltavam dois gols e o Palmeiras ainda tinha 20 minutos de jogo para buscá-los. O impossível estava virando algo muito provável diante dos olhos de um país que parou aquela noite para ver os dois melhores times de então se enfrentarem.


Aos 39 minutos, a equipe de Carlos Alberto Silva chegou ao quinto gol. Um golaço de Cafu! O lateral direito Índio lançou na meia-lua para Magrão, que tocou de primeira por cima da zaga gremista. Cafu pegou na veia de bate-pronto! Cinco a um! Sonha o palmeirense! Para quem buscava apenas a dignidade, a possibilidade da classificação estava a apenas mais um gol...


Nos minutos que se seguiram, o Grêmio prendeu a bola, como era de se esperar, e não deu ao Palmeiras muitas chances de atacar. Em uma delas, Mancuso arriscou de canhota do meio da rua e mandou por cima da trave.


Não deu. O gol não saiu e o Palmeiras foi eliminado. Porém, não era isso que a torcida demonstrava ao apito final do árbitro. Poucas vezes, um time que se despede de uma competição foi tão louvado pelos seus torcedores como naquela noite. Tem horas em que o resultado se torna apenas um detalhe.


Honra, dignidade, luta, futebol, classe, amor à camisa. Substantivos de um tempo em que nos era permitido acreditar.


Ousando adaptar Drummond. “Aquele Palmeiras e Grêmio é apenas um vídeo no Youtube. Mas, como dói!”




Palmeiras 5 x 1 Grêmio
Palestra Itália (São Paulo)
Árbitro: Antônio Pereira da Silva (GO)


Gols: Jardel, aos oito, Cafu, aos 29, e Amaral, aos 39 minutos do primeiro tempo; Paulo Isidoro, aos 13, Mancuso, aos 24, e Cafu, aos 39 minutos do segundo tempo.



Palmeiras: Sérgio; Índio, Antônio Carlos, Cléber e Wágner; Mancuso, Amaral (Magrão), Cafu e Paulo Isidoro; Alex Alves (Maurílio) e Muller. Técnico: Carlos Alberto Silva


Grêmio: Murilo; Arce, Rivarola, Scheidt e Roger; Adílson, Luís Carlos Goiano, Arílson (André Vieira) e Carlos Miguel; Paulo Nunes (Vágner Mancini) e Jardel (Nildo). Técnico: Luiz Felipe Scolari

Um comentário:

  1. Como eu gostaria de ver uma partida 'digna' de nostro Palestra, no jogo da volta. Independente do número de gols e da classificação (quase impossível), quero ver o time vencer... pela #honrapalestrina! São Marcos já disse que faz questão de estar presente. E é justamente por isto.

    Espero que nossa torcida saiba se comportar e apoiar nosso time. Parece que a garra acabou, depois do assalto corintiano. Falha grave! Mas não se conserta um erro com outro.

    Certamente, uma mancha negra (ou verde, por ironia), na carreira destes jogadores! Jogar sem vontade é coisa de quem não sabe o peso da camisa que veste! Espero não ver isto novamente nessa vida.

    Avanti Palestra!

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