Por Thiago Macedo
Além de estabelecer uma boa vantagem para avançar na Copa do Brasil, a vitória da última quarta-feira sobre o Santo André permitiu que o Palmeiras alcançasse um feito que não ocorria há 12 anos. A squadra de Felipão completou 15 partidas sem derrota. A última vez que isso havia ocorrido foi entre 19 de março e 28 de abril de 1999, quando o time, também comandado por Don Felipe, trilhava o caminho do sucesso na América.
Naquela época, o Palmeiras disputava três campeonatos simultaneamente: o Paulistão, a Copa do Brasil e a Libertadores. Em meio à maratona de jogos, a equipe colheu bons resultados. Na Copa do Brasil, só caiu nos pênaltis diante do Botafogo nas semifinais. No Paulistão, foi vice-campeão naquele jogo das polêmicas embaixadinhas de Edílson, então no Corinthians. E na Libertadores... Quem não se lembra?
O 12º jogo daquela série invicta de 99 foi um dos mais espetaculares da campanha vitoriosa na Libertadores. Quarta-feira, 21 de abril. Oitavas de final. São Januário, Rio de Janeiro. O Palmeiras havia se classificado em segundo do seu grupo e, por isso, decidia a passagem às quartas na casa do Vasco. Para piorar, tinha conseguido apenas um empate por 1 a 1 em casa na semana anterior.
O Vasco era o atual campeão da América e ainda mantinha um supertime. Para ficar só nos mais importantes, tinha Mauro Galvão na zaga, Juninho Pernambucano no meio e um ataque formado por Donizete e Luizão. O favoritismo, naquela noite, era dos coirmãos cariocas. E Luizão, com apenas três minutos do primeiro tempo, tratou de levar a campo esse favoritismo. Jogada de Donizete, falha de Cléber e sem-pulo do centroavante. Um a zero. A situação se complicava e o Vasco continuava pressionando. Tanto que obrigou Marcos a salvar o Palmeiras nos pés de Donizete, aos 19.
Mas, a noite seria de Paulo Nunes e daquele que talvez seja o único que eu, na minha curta carreira de torcedor de futebol, tenha chamado verdadeiramente de ídolo: Alex. Recomendo a todos os que o criticam que assistam o teipe daquele jogo. Aquela foi uma exibição definitiva, clássica, irretocável do camisa 10. Inesquecível para um garoto de 15 anos.
Aos 26, Alex matou no peito um cruzamento de Arce e chutou de direita, obrigando o goleiro Márcio a fazer uma difícil defesa. Era só o começo. Três minutos depois, César Sampaio foi malandro. Cobrou rapidamente uma falta, lançando o Júnior na esquerda. O lateral bateu cruzado forte, rasteiro. Alex tentou de letra, mas a bola cruzou toda a área, sobrando para Paulo Nunes empatar.
O jogo era lá e cá. Pouco depois de empatar, o Palmeiras deu uma aula de contra-ataque. Zinho recuperou a bola no campo de defesa e lançou Alex. Ele partiu em velocidade pelo meio. Quatro toques na bola, acionou Paulo Nunes, que devolveu de calcanhar. Tudo de primeira: Alex, Paulo Nunes, Alex de novo. Chute forte, com efeito. Golaço. Alex é Craque! Assim mesmo, com C maiúsculo.
Nem tudo eram flores em São Janu, é claro. Afinal, dois dos melhores times do Brasil estavam em campo, disputando uma partida decisiva, que valia continuar vivo na disputa pela América. Ainda no primeiro tempo, o Vasco levou perigo num chute de fora da área de Alex Oliveira, que Marcos – ainda em processo de beatificação – se virou para mandar para escanteio. Na sequência da jogada, Ramon bateu fechado e Galeano raspou contra. O árbitro, no entanto, deu para Ramon a autoria do gol do novo empate. Quando o juiz apitou o fim da primeira etapa, dei graças a Deus. O Vasco estava crescendo perigosamente. A torcida lusa estava prestes a dançar o vira.
Mas, eis que chega então o segundo tempo. Fazendo um exercício muito fácil de imaginação, não é difícil ver Felipão apelando para todos os brios dos palmeirenses nos vestiários. A resposta veio muito rápida!
Com dois minutinhos de jogo, Alex fez um gol para queimar a língua de todos aqueles que um dia ousaram chamá-lo jocosamente de Alexotan, dizendo que ele dormia em campo. Acordadíssimo, ele se antecipou ao cruzamento de Rogério, deixou o lateral Zé Maria e o goleiro Márcio bocejando no lance e marcou o terceiro do Verdão. Loucura na sala de televisão do número 599 da rua Noboro Fukushima, em Apucarana. E olha que o grito tinha que ser baixinho para não acordar a mãe! Alex é muito ídolo!!!
Os contra-ataques alviverdes começaram a surgir aos borbotões. Em um deles, Paulo Nunes foi derrubado pelo volante Nasa na lateral da área. Arce – ah, meu Deus, haverá um dia outro igual? – iludiu a todos que esperavam o cruzamento e mandou direto para o gol. No cantinho, com direito a falha do arqueiro vascaíno.
Com cinco minutos, o Palmeiras marcava dois gols e liquidava a fatura. O Vasco ainda viria para cima com tudo, perdendo várias chances de complicar a partida. E no finzinho, Paulo Nunes ainda teve tempo de perder um gol feito, cara a cara com Márcio.
Mas, já era. Morria ali, em sua casa, o atual campeão da Libertadores. Depois do apito final e já com a tradicional camiseta do Chiclete com Banana, Júnior Baiano provocava a torcida vascaína. Que viesse, então, a próxima vítima: o Corinthians! (Esse é assunto para outra oportunidade!)
Vasco 2, Palmeiras 4. Um jogo de sonhos que ainda hoje, 12 anos depois, faz sonhar...
A atual sequência invicta dos comandados de Felipão ainda é vista com desconfiança por boa parte da torcida. Ganhar de Grêmio Prudente e Santo André não arranca lá muitos suspiros de quem um dia viu Paulo Nunes e Alex acabarem com o Vasco em São Januário. Dificilmente, o time de hoje vai nos dar a alegria de uma Libertadores como aquela, mas sonhar – dormindo ou acordado – não custa nada. O ditado é batido, mas – graças a Deus – verdadeiro!
Em tempo: a maior sequência invicta da história do Palmeiras é bem maior que as dos times de Felipão em 1999 e 2011. Sob o comando de Oswaldo Brandão, o time chegou a ficar 40 partidas sem perder entre dezembro de 1971 e junho de 1972.
Vasco 2 x 4 Palmeiras
São Januário (Rio de Janeiro)
Árbitro: Wilson de Souza Mendonça
Gols: Luizão, aos três, Paulo Nunes, aos 29, Alex, aos 32 e Ramon, aos 35 minutos do primeiro tempo; Alex, aos dois e Arce, aos cinco minutos do segundo tempo.
Vasco: Márcio; Zé Maria, Odvan, Mauro Galvão e Alex Oliveira; Nasa, Paulo Miranda (Luís Cláudio), Juninho e Ramon (Vágner); Donizete (Zezinho) e Luizão. Técnico: Antônio Lopes
Palmeiras: Marcos; Arce, Júnior Baiano, Cléber e Júnior; Galeano (Rogério), César Sampaio, Alex (Roque Júnior) e Zinho; Paulo Nunes e Oséas (Evair). Técnico: Luiz Felipe Scolari
Coisa Linda! Belo relato meu irmão!
ResponderExcluirValeu, cara! Acho que assistimos juntos a este jogo... Será? Não me lembro de tantos detalhes assim... hehehe
ResponderExcluirDa época que Evair era reserva! Beeela época!
ResponderExcluirHoje, WP9 (apelido estilo AR15 ou AK47, né, Thales?! huauha) é 'salvação'! Para não dizer outra coisa, as coisas mudaram...
Avanti Palestra!
Thiago, adicionei o vídeo com o compacto do jogo, ao final do seu post, pois realmente este merece ser visto muitas e muitas vezes!
ResponderExcluirParabéns pela coluna!
Avanti Palestra!
Show, Miguel! Belíssima ideia... Aliás, esse vídeo me ajudou a escrever a coluna... Hehehe
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