sexta-feira, 27 de maio de 2011

NA MEMÓRIA E NA HISTÓRIA – Evair ou Keirrison?

Calma, gente! A pergunta do título é absurda, eu sei. Quer dizer, hoje todo mundo concorda que ela é absurda. Mas, há dois anos não faltou quem fizesse a comparação: Keirrison, o K9, seria o novo Evair do Palestra?

Mesmo naquela época, a resposta mais óbvia era “não”. Mas, os números do garoto em seus poucos meses de Palestra Itália eram realmente impressionantes. Nos primeiros 14 jogos, K9 marcou 16 gols, o que fez dele, naquele momento, o jogador com melhor média da história do Palmeiras. Apesar de ter diminuído o ritmo nas partidas seguintes, Keirrison deixou o clube com 24 gols em 35 jogos. Uma média sensacional, convenhamos!

No dia 14 de junho de 2009, Keirrison andava meio chamuscado com a torcida palmeirense. Nos últimos seis jogos, tinha balançado as redes apenas uma vez. Além disso, a torcida o acusava de sumir em jogos decisivos e os rumores de sua saída eram cada vez mais fortes.

Fazia frio naquela tarde e eu tinha uma missão. Quem me conhece sabe que, para eu pedir para trabalhar em um fim de semana, eu preciso ter um bom motivo. Naquela ocasião, eu tinha o tal bom motivo. Dali a dois dias, o Palmeiras comemoraria dez anos da conquista da Libertadores e eu fui ao Palestra para conseguir que um dos heróis da conquista da América se dispusesse a gravar uma reportagem especial sobre aquele jogo.

No fim da tarde, o Palmeiras iria enfrentar o Cruzeiro pelo Brasileirão e, antes do jogo, alguns campeões de 1999 seriam homenageados. Júnior Baiano, Galeano, Cléber, Sérgio, Alex, Evair... Só craque! Deixei a timidez de lado e tentei convidar cada um deles no clube. Foi difícil. Tive boas impressões de alguns, impressões mais ou menos de outros, mas foi emocionante.

Dentro do vestiário, interrompi uma conversa entre Evair e Clebão e consegui do nosso eterno matador um telefone, um endereço e a promessa de que a reportagem iria rolar.

Missão cumprida, fui para a arquibancada assistir ao time Vanderlei Luxemburgo contra o nossos fratelli do Palestra de Minas. O jogo caiu bem entre dois compromissos importantíssimos que tínhamos pela Libertadores. O empate com o Nacional, do Uruguai, em casa na quarta-feira anterior e a decisão contra o mesmo Nacional, em Montevidéu, na quarta-feira seguinte.

Ainda não sabíamos, mas o embate contra os reservas do Cruzeiro seria o último do K9 pelo Verdão no Palestra Itália. E, apesar de tudo que ocorreu depois, ele deixou uma boa impressão naquela ocasião. Uma belíssima impressão, aliás.

Com 24 minutos de jogo, o time mineiro surpreendeu, abrindo o placar com um gol de falta de Bernardo (este garoto que está jogando pra caramba no Vasco, hoje). Mas, o Palmeiras não demorou a reagir.

Nove minutos depois, o gol de empate foi um gol que não foi gol. Cruzamento da direita e Marcão cabeceou. A bola bateu no travessão e pingou para o lado de fora. Com a indevida colaboração do bandeira, o árbitro Leandro Vuaden deu o tento para o zagueiro palmeirense.

A virada veio logo em seguida e em grande estilo. Uma bola rebatida pela defesa cruzeirense, sobrou para Keirrison que emendou de primeira, meio que de voleio, de fora da área. Golaço! O time reserva do Cruzeiro não oferecia resistência e, aos 13 do segundo tempo, Wendel deixou o K9 na boa para fazer o terceiro e matar o jogo. Palmeiras três, Cruzeiro um.

No fim, Keirrison ainda foi substituído por Ortigoza (curiosamente, hoje no Cruzeiro, enquanto Wellington Paulista, cruzeirense à época, hoje está no Palmeiras) apenas para ser aplaudido e fazer as pazes com a torcida.

Festa no Palestra! Aquela parecia ser mesmo a redenção do artilheiro. O retorno daquela fase dourada de semanas anteriores. Time em alta para enfrentar o Nacional pela Liberta...

As ilusões foram caindo uma a uma. Empatamos em 0 a 0 no Uruguai, fomos eliminados e, depois de dois jogos, Keirrison foi embora para o Barcelona (onde nunca jogou).

Aquele dia, hoje se mostra simbólico na comparação entre o E9 (no tempo dele, não tinha essas frescuras, eu sei) e o K9. O jovem Keirrison foi ignorado pelo Barça, passou pelo Benfica, pela Fiorentina e hoje é piada no Santos. Evair será para sempre o matador do Palestra. Um dos maiores ídolos do clube. Futebol é momento? Talvez. Mas, cada caso é um caso.

As aparências até enganam, mas nossos ídolos ainda são os mesmos.

Palmeiras 3 x 1 Cruzeiro
Palestra Itália

Árbitro: Leandro Vuaden
Assistentes: Roberto Braatz e Altemir Hausmann

Gols: Bernardo, aos 24, Marcão, aos 33, e Keirrison, aos 38 minutos do primeiro tempo; Keirrison, aos 13 minutos do segundo tempo.

Palmeiras: Marcos; Marcão, Danilo e Maurício Ramos; Wendel, Pierre, Cleiton Xavier, Diego Souza (Mozart) e Armero; Willian (Deyvid Sacconi) e Keirrison (Ortigoza). Técnico: Vanderlei Luxemburgo


Cruzeiro: Fábio; Jancarlos, Léo Fortunato, Gustavo (Leonardo Silva) e Sorín (Jonathan); Henrique, Elicarlos, Marquinhos Paraná e Bernardo; Wellington Paulista e Wanderley (Dudu). Técnico: Adilson Batista

Um comentário:

  1. Coincidentemente, há alguns dias, eu estava comentando com um amigo sobre a diferença do início de carreira do K9 para os dias de hoje. E ele me deu uma excelente explicação para isso: "são os deuses do futebol".

    Realmente. O que diferencia um ídolo de um craque não é o futebol, mas fatores extra-campo. O futebol diferencia um craque de um bom jogador. Para quem tem São Marcos no time, não se precisa explicar o que é um ídolo.

    Craque, o K9 tinha tudo para ser, com aquele começo de carreira espetacular. Não quis lutar para se tornar ídolo palestrino por querer tentar ser mais um craque catalão, acabou não se encaixando nem entre os 'bons jogadores'.

    Alguém encontra outra explicação? Eu acredito nos deuses do futebol.

    Avanti Palestra!

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