Quatro de março de 2007 foi o dia em que eu parei, pensei e disse pra mim mesmo: bem-vindo à vida adulta. Não que eu tenha “virado” adulto neste dia. Foi bem antes disso, eu acho. Ou depois? Bom, o fato é que, naquele dia, eu me dei conta do tal rito de passagem.
A situação foi a seguinte. Poucos dias antes, eu havia fechado o contrato de aluguel do apartamento onde moro até hoje. Não havia nada nele. Mas, naquele domingo, o prazer de abrir uma porta e perceber que, pela primeira vez na vida, eu tinha um lugar para chamar de meu – só meu! – já enchia toda a sala e o quarto espaçosos, o banheiro sem box, a pequena cozinha e o corredorzinho que se pode chamar de área de serviço. Ali, quase cinco anos depois de deixar a casa da mãe, eu começava a morar sozinho.
Para não dizer que não havia nadinha em minha casa, ela estava lá. Justamente ela, a personagem principal da história. Uma TV Toshiba, 20 polegadas, de tubo. Novinha! Tinha acabado de chegar. Era tudo que eu precisava. Foi só colocá-la sobre a própria caixa, conectá-la a um cabo de antena coletiva do prédio, estender um lençol diante dela para que eu pudesse confortavelmente deitar no chão e ligá-la, me sentindo a pessoa mais independente do mundo. Estava para começar mais um Palmeiras e Corinthians.
Nenhum dos dois rivais podia contar muita vantagem sobre o outro naquele Paulistão. Aquele que ganhasse o dérbi, teria dias mais tranquilos. Quem perdesse, viveria um pequeno inferno aos olhos da torcida e da imprensa, praticamente dizendo adeus às chances de classificação. O Palmeiras vinha embalado por uma vitória sobre o São Caetano fora de casa. Falei sobre este jogo na minha estreia neste blog, um texto que você pode ler aqui. Valdivia começava a se firmar como ídolo da torcida, mas o grande nome do time comandado por Caio Júnior ainda era Edmundo. E, naquela tarde, mais uma vez ele mostraria por quê.
A situação ruim das equipes ficou evidente na escalação defensiva que os dois treinadores levaram a campo. O jogo começou travado em um meio-campo povoado de volantes. Mas, aos 17 minutos, a categoria falou mais alto. A defesa corintiana afastou o cruzamento da direita, Valdivia ganhou o rebote e deixou para Martinez. Misturando técnica e sorte, o volante palmeirense deixou quatro adversários para trás, invadiu a área e devolveu ao Mago. O que veio a seguir é poesia.
Como se colocasse com as mãos, Valdivia fez a bola chegar macia no peito de Edmundo. Ele a chamou de “meu amor” e sem deixá-la cair, arrematou. Fuzilou. Lindo gol! Palmeiras 1, Corinthians 0. O primeiro de incontáveis gritos que dei através da janela do MEU apartamento!

Na comemoração, amparado por Leandro, Pierre e Alemão (descanse em paz!), o Animal pedia o grito da torcida palestrina. Em minoria no estádio (o mando era do Corinthians), os alviverdes responderam. Empurraram o time, querendo mais. E foram atendidos. Vinte minutos depois, Valdivia pegou a bola no meio-campo. De costas para o campo de ataque, o chileno tinha dois jogadores na marcação. Com um giro malandro, ele se livrou de ambos e arrancou em direção ao gol. Pela esquerda, Edmundo pedia. Pela direita, Osmar. Fominha, Valdivia arriscou o chute. A defesa corintiana cortou, mas a bola sobrou para Edmundo, que bateu cruzado. Osmar evitou que a bola fosse para fora e, de canela, ampliou. Dois a zero.
O Palmeiras seguiu melhor. Pressionou até o fim do primeiro tempo. Sem trégua. Nem parecia um clássico. Na saída para o intervalo, Edmundo contava o segredo da vitória até então: o entrosamento com o Mago.
Apesar dos fatos tristes do jogo – Alemão, do Palmeiras, e Nilmar, do Corinthians, torceram violentamente o joelho –, o Palmeiras continuou jogando com alegria na segunda etapa. Aos nove minutos, Valdivia invadiu a área corintiana com tranquilidade, mas finalizou mal de esquerda. O tiro de misericórdia veio aos 37. A jogada começou com Wendel, lançando Cristiano – um atacante sem grande expressão que havia acabado de chegar do Paraná Clube – na ponta direita. Ele olhou para a área, esperando a chegada de Edmundo e cruzou. De voleio, o eterno camisa sete alviverde matou o goleiro Jean. Prestes a completar 36 anos, o Animal mais uma vez colocou a mão ao lado da orelha, pedindo o aplauso. Como se não ouvisse o que queria, ele mesmo exclamou sem falsa modéstia: eu sou f...! E ele era mesmo!
Palmeiras 3, Corinthians 0. Dizem que os gritos de olé que se sucederam ao gol ecoam até hoje no Morumbi. A torcida palmeirense aclamava Leão. Ironicamente, é claro. O ex-goleiro palestrino era, então, técnico corintiano.
Terminado o jogo, subi a pé a rua Teodoro Sampaio, até o metrô Clínicas, para voltar à casa de uma amiga, que me hospedava na época. Ainda não havia como dormir no meu apartamento. Nem cama, eu tinha.
Naquela mesma semana, encontrei um quadro de madeira descartado perto da lixeira do meu prédio. Salvei a peça de ir para o lixo, a pintei de verde e colei nela os recortes dos jornais de segunda-feira. A ideia era eternizar a imagem de Edmundo de braços abertos tal qual um Cristo Redentor e a manchete do Jornal da Tarde: Show Animal... Talvez, nem fosse preciso tanto. Aquela partida – aquele dia! – jamais sairá da minha memória!
Corinthians 0 x 3 Palmeiras
Morumbi (São Paulo)
Árbitro: José Henrique de Carvalho (SP)
Assistentes: Ednilson Corona e Carlos Augusto Nogueira Júnior (SP)
Gols: Edmundo, aos 17, e Osmar, aos 38 minutos do primeiro tempo; Edmundo, aos 37 minutos do segundo tempo.
Corinthians: Jean; Eduardo Ratinho (Amoroso), Marinho, Gustavo e Carlão (Rafael Fefo); Daniel (William), Marcelo Mattos, Magrão e Roger; Nilmar e Arce. Técnico: Emerson Leão
Palmeiras: Marcos; Wendel, David, Edmílson e Leandro; Pierre, Francis, Martinez e Valdivia (Cristiano); Edmundo (Michael) e Alemão (Osmar). Técnico: Caio Júnior
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